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O retorno aos formatos analógicos: por que jovens redescobrem o vinil, o papel e o filme em plena era digital?

Entre telas, algoritmos e excesso de estímulos, jovens redescobrem no analógico uma forma de desacelerar e se reconectar consigo mesmos
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Há algo curioso — quase poético — acontecendo diante de nossos olhos. Enquanto avançamos na era da inteligência artificial, da conectividade permanente e das telas onipresentes, um movimento contrário, suave e silencioso, cresce nas mãos das novas gerações: o retorno ao analógico.

Vinil. Câmeras de filme. Livros físicos. Walkmans, cassetes, polaroids, agendas de papel.

Objetos que muitos adultos acreditaram ter ficado para trás voltam a brilhar diante dos olhos de jovens que nunca viveram plenamente sua época original. Por quê?

A resposta não cabe em uma única explicação. Ela se desdobra em camadas sociológicas, psicológicas, culturais e afetivas. E, ao final, revela algo profundo: não se trata apenas de nostalgia, mas de sobrevivência emocional em um mundo acelerado.

O cansaço invisível da vida digital Nunca estivemos tão conectados — e tão cansados.

O filósofo Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, descreve nossa época como marcada por excesso de estímulos, produtividade compulsiva e uma avalanche de informações que esgota a atenção. A mente vive em estado de alerta, pulando de notificação em notificação, como alguém tentando atravessar um rio pisando em pedras móveis.

A geração Z cresceu nesse ambiente. Desde cedo, aprendeu a lidar com multitarefa, feeds infinitos, vigilância algorítmica e comparação social constante. E agora começa a reagir.

A psicóloga Sherry Turkle, do MIT, observa que esse excesso de telas gera “solidão conectada”: estamos cercados de gente, mas desligados de nós mesmos.

Não é coincidência que pesquisas clínicas sobre digital detox apontem melhora em humor, sono e foco quando as pessoas reduzem (não eliminam) o uso de telas. O digital cansa. Exaure. Despersonaliza.

E o analógico reaparece como um antídoto intuitivo.

O analógico devolve o corpo, o tempo e o silêncio Vivemos cercados por intangibilidade: fotos que somem, músicas que não são nossas, arquivos que nunca tocamos. O analógico, ao contrário, exige corpo, tato e demora.

Colocar um disco para tocar é quase um ritual: tirar da capa, posicionar a agulha, ouvir o chiado inicial. Não tem “pular para a próxima música”. Há um convite ao foco.

Fotografar com filme é aceitar o imprevisível. Você não vê o resultado na hora. Você espera.

Ler um livro físico é sentir o peso, a textura, a marca da dobra na página. É um objeto que ocupa espaço — e que lembra você de voltar a ele.

O sociólogo Hartmut Rosa diria que o analógico produz “ressonância”: uma experiência de conexão real, profunda, que não se dissolve no scroll infinito.

Esses pequenos rituais devolvem algo que a vida digital sequestrou: a sensação de presença.

Nostalgia? Sim. Mas também identidade e autonomia Pesquisadores de cultura e consumo lembram que nostalgia não é só saudade. É também busca de sentido em tempos acelerados.

Segundo Svetlana Boym, existem dois tipos de nostalgia:

  • a restaurativa, que quer reviver o passado;
  • a reflexiva, que usa o passado para pensar o presente.

A geração Z pratica a segunda. Quando escolhe vinil, filme ou livro físico, ela não está tentando “voltar no tempo”, mas construir identidade.

Esses objetos dizem algo:

  • “Eu valorizo o ritual.”
  • “Eu escolho a calma.”
  • “Eu recuso o consumo acelerado e descartável.”
  • “Eu me reconheço em uma estética que não é regida pelo algoritmo.”

Essa nostalgia consciente é também uma forma de resistência simbólica: “Eu desacelero porque o mundo me acelera demais.”

A estética da presença: a beleza do imperfeito Cada tecnologia carrega uma estética. A do analógico valoriza o que o digital apagou:

o chiado do vinil

o grão da foto

  • a página amarelada
  • o tempo da revelação
  • a capa gasta pelo uso
  • a trilha sonora que não pode ser reorganizada infinitamente

Não é perfeição. É presença. É história. É afeto.

O jornalista Kyle Chayka chama isso de “estética da substância”: um movimento contrário à leveza líquida dos arquivos digitais, que nada deixam em nós.

O paradoxo: resistência e mercado Naturalmente, o mercado percebeu o fenômeno.

Vinis voltam a ser produzidos e custam caro. Câmeras analógicas subiram de preço. Editoras investem em edições especiais como objeto de desejo. A estética “vintage” tornou-se marca, nicho, estilo de vida.

A contracultura rapidamente vira produto.

Mas — e este é um ponto decisivo — ainda que comercializado, o gesto de ouvir vinil ou ler um livro físico não perde sua força subjetiva. A experiência permanece autêntica, mesmo dentro da lógica de consumo.

É a ambivalência contemporânea: resistimos dentro do próprio sistema que nos vende a resistência.

Por que isso importa? A luta pelo tempo No fundo, o fenômeno aponta para uma disputa fundamental: a disputa pelo tempo.

O digital é velocidade. O analógico é pausa.

O digital é fluxo. O analógico é ponto.

O digital nos empurra para fora de nós mesmos. O analógico nos traz de volta para dentro.

O filósofo e teólogo Abraham Heschel dizia que o ser humano precisa de “catedrais no tempo” — espaços de pausa e contemplação. Talvez o retorno ao analógico seja exatamente isso: a tentativa de criar pequenas catedrais pessoais em meio ao ruído permanente da era digital.

Conclusão: o futuro é híbrido — mas o tato voltou para ficar O retorno ao analógico não significa rejeição à tecnologia. A maioria dos jovens vive confortavelmente entre TikTok e toca-discos, entre Kindle e capa dura, entre Instagram e câmera de filme.

O que está em jogo não é o passado, mas o equilíbrio. Não é nostalgia romântica, mas autocuidado. Não é moda vazia, mas construção de identidade.

Esse movimento revela algo importante sobre nós: mesmo rodeados por telas, continuamos seres de carne, tato, memória e ritmo interno. E precisamos de objetos que nos devolvam isso.

O analógico voltou não para substituir o digital, mas para lembrar que somos humanos — e que a vida, para ser vivida, precisa de tempo, presença e uma certa dose de imperfeição.

É nesse ponto, exatamente nesse ponto, que o vinil rodando devagar, a foto pendurada para secar e a página sendo virada com calma se tornam muito mais que objetos antigos: tornam-se um manifesto silencioso por um modo de existir mais inteiro.

 

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