Após mais de 25 anos de negociações intermitentes, o acordo entre Mercosul e União Europeia voltou ao centro do cenário internacional nesta quinta-feira, 9 de janeiro de 2026, com a aprovação política de um novo passo decisivo para sua formalização. O movimento representa um avanço significativo em uma das tratativas comerciais mais longas e complexas da história recente, envolvendo países com interesses econômicos, sociais e ambientais bastante distintos.
O acordo, que busca criar uma ampla zona de livre comércio entre os dois blocos, passou por diferentes fases ao longo das últimas décadas. Em vários momentos, chegou a ser considerado inviável. Ainda assim, resistiu ao tempo, às mudanças de governo e às transformações do cenário global até alcançar, agora, um estágio considerado crucial.
O que está em jogo no acordo Mercosul–UE
O acordo Mercosul–União Europeia tem como objetivo principal reduzir ou eliminar tarifas de importação, facilitar o comércio de bens e serviços e estabelecer regras comuns para investimentos, compras governamentais e propriedade intelectual. Na prática, ele conecta dois grandes blocos econômicos que, juntos, representam centenas de milhões de consumidores e uma parcela relevante do comércio mundial.
De um lado estão os países do Mercosul, liderados por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, economias fortemente ligadas à exportação de commodities agrícolas e minerais, mas que também buscam ampliar a presença de produtos industrializados no mercado externo. Do outro, a União Europeia, um dos maiores polos econômicos do planeta, com forte base industrial, tecnológica e regulatória.
Caso o acordo entre em vigor, ele poderá facilitar o acesso de produtos sul-americanos ao mercado europeu e, ao mesmo tempo, abrir ainda mais espaço para produtos e serviços europeus na América do Sul.
Uma negociação que atravessou gerações
As conversas formais entre Mercosul e União Europeia começaram ainda no fim da década de 1990, em um contexto de expansão da globalização e fortalecimento de blocos econômicos regionais. Desde então, o mundo mudou profundamente. Crises financeiras, disputas geopolíticas, preocupações ambientais e transformações tecnológicas alteraram prioridades e interesses.
Ao longo desse percurso, o acordo avançou, recuou e ficou paralisado em diversos momentos. Um dos principais entraves sempre foi a agricultura. Países europeus, especialmente aqueles com forte produção agrícola, temiam que a entrada de produtos sul-americanos mais baratos pudesse prejudicar seus produtores locais. Já os países do Mercosul resistiam a abrir completamente seus mercados industriais sem garantias de acesso real ao mercado europeu.
Além disso, nos últimos anos, o debate ambiental ganhou protagonismo. Questões ligadas ao desmatamento, às mudanças climáticas e às metas de sustentabilidade passaram a ser usadas como argumentos centrais por críticos do acordo, especialmente dentro da Europa.
O avanço de janeiro de 2026
O movimento registrado em janeiro de 2026 não significa que o acordo esteja automaticamente em vigor, mas representa um sinal político forte. A União Europeia decidiu avançar internamente com o texto negociado, abrindo caminho para a assinatura formal e, posteriormente, para a etapa mais complexa: a ratificação pelos parlamentos nacionais.
Esse tipo de aprovação é considerado sensível, porque envolve interesses internos de cada país. Em algumas nações europeias, especialmente aquelas com setores agrícolas mais organizados, o acordo enfrenta resistência significativa. Ainda assim, o avanço indica que, pela primeira vez em anos, há uma disposição real de levar o tratado adiante.
Quem apoia e quem resiste
O apoio ao acordo vem, em grande parte, de setores industriais e exportadores, tanto na Europa quanto na América do Sul. Para essas áreas, o tratado representa oportunidade de expansão, redução de custos e maior previsibilidade nas relações comerciais.
Por outro lado, a resistência se concentra principalmente em setores agrícolas europeus e em grupos ambientalistas, que temem impactos negativos sobre produtores locais e sobre políticas ambientais. Há também críticas de setores do Mercosul que alertam para o risco de desindustrialização, caso a abertura de mercado ocorra sem políticas de proteção e estímulo à indústria local.
Essas divergências explicam por que o acordo demorou tanto tempo para avançar e por que sua implementação, mesmo após a aprovação política, ainda pode levar anos.
O que muda para o Brasil e o Mercosul
Para o Brasil, o acordo é visto por muitos analistas como uma chance de diversificar parceiros comerciais e reduzir a dependência de poucos mercados. Produtos como carne, café, suco de laranja, açúcar e etanol tendem a ganhar mais competitividade no mercado europeu, caso as tarifas sejam reduzidas conforme previsto.
Além disso, empresas brasileiras poderiam ter acesso mais fácil a cadeias produtivas europeias, atraindo investimentos e estimulando inovação. No entanto, especialistas também alertam que esse processo exige planejamento. Sem políticas industriais e ambientais bem estruturadas, os ganhos podem se concentrar em poucos setores.
O impacto para a União Europeia
Para a União Europeia, o acordo com o Mercosul surge como parte de uma estratégia mais ampla de reposicionamento global. Em um cenário de tensões comerciais entre grandes potências e disputas por mercados estratégicos, fortalecer laços com a América do Sul pode representar uma alternativa importante.
Empresas europeias dos setores automotivo, químico, farmacêutico e de serviços tendem a se beneficiar com maior acesso ao mercado sul-americano. Ao mesmo tempo, o bloco busca usar o acordo como ferramenta para influenciar padrões ambientais e regulatórios fora da Europa.
Curiosidades que ajudam a entender o acordo
• É uma das negociações comerciais mais longas já registradas entre grandes blocos econômicos.
• O texto do acordo começou a ser discutido quando muitos dos atuais líderes políticos sequer estavam na vida pública.
• Se implementado, criará uma das maiores zonas de livre comércio do mundo em número de consumidores.
• O acordo mistura comércio, política ambiental, diplomacia e estratégia geopolítica.
• Seu avanço acontece em um momento de reconfiguração do comércio global, com países buscando novos parceiros.
O que ainda precisa acontecer
Apesar do avanço anunciado em janeiro de 2026, o acordo ainda precisa passar por diversas etapas antes de entrar em vigor. Entre elas estão:
- Assinatura formal entre os blocos
- Aprovação no Parlamento Europeu
- Ratificação nos parlamentos dos países do Mercosul
- Ajustes legais e regulatórios internos
Cada uma dessas fases pode gerar novos debates, emendas ou atrasos.
O avanço do acordo Mercosul–União Europeia em 2026 marca um momento simbólico em uma negociação que atravessou décadas, governos e crises globais. Mais do que um tratado comercial, ele reflete disputas de interesse, mudanças de paradigma econômico e o desafio de conciliar crescimento com sustentabilidade.
Ainda há um longo caminho até que o acordo produza efeitos concretos, mas o sinal político dado agora indica que os blocos estão dispostos a enfrentar resistências e avançar. Para o Brasil e seus parceiros, trata-se de uma oportunidade que exige cautela, planejamento e visão de longo prazo.
Independentemente do desfecho final, o acordo já ocupa um lugar importante na história das relações internacionais e seguirá sendo tema central nos debates sobre o futuro do comércio global.