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O futebol brasileiro está se consumindo?

Entre a monetização infinita e a exaustão de quem sustenta o espetáculo.
Leitura: 9 min
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Imagem: Grupo Kallas

O calendário do futebol brasileiro atravessa, em 2026, uma fronteira inédita: pela primeira vez, o Campeonato Brasileiro terá jogos distribuídos pelos doze meses do ano. A eliminação da tradicional pré-temporada — aquele período de testes nos campeonatos estaduais — marca uma transformação estrutural em um esporte que já exigia de seus atletas entre 60 e 70 partidas anuais. A justificativa oficial aponta para a necessidade de abrir mais datas em ano de Copa do Mundo. Mas essa decisão levanta questões fundamentais: estamos aprimorando o produto ou simplesmente multiplicando oportunidades de monetização a qualquer custo?

A metamorfose do modelo de competição

A adoção do sistema de pontos corridos no Campeonato Brasileiro, inspirada nas principais ligas europeias, representou uma guinada em relação aos tradicionais formatos eliminatórios. Pesquisadores como Márcio Trevisan, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, argumentam, em estudos publicados na Revista Brasileira de Ciências do Esporte, que o formato valoriza a consistência ao longo de múltiplas rodadas, teoricamente premiando o melhor time da temporada, com menor interferência de fatores aleatórios.

Contudo, a aplicação desse modelo encontra, no Brasil, peculiaridades problemáticas. Enquanto a Premier League inglesa trabalha com 38 rodadas concentradas em cerca de nove meses, clubes brasileiros enfrentam simultaneamente competições estaduais, nacionais (incluindo a Copa do Brasil), continentais (Libertadores e Sul-Americana) e, agora, um calendário que não oferece pausa regenerativa.

O corpo sob pressão contínua

A fisiologia do atleta não acompanha a lógica expansionista do calendário. O Dr. João Alves, coordenador do Laboratório de Estudos em Futebol da Unicamp, destaca em suas pesquisas que a ausência de períodos de descanso programado aumenta exponencialmente os riscos de lesões por sobrecarga. “O músculo precisa do ciclo de microlesão e recuperação para fortalecer. Sem isso, entramos em um território de degradação progressiva”, explica em artigo publicado no British Journal of Sports Medicine.

Dados da Confederação Brasileira de Futebol indicam que lesões musculares aumentaram 23% entre 2019 e 2024 nos clubes da Série A, período que coincide com a intensificação do calendário. Psicólogos esportivos como a Dra. Regina Santos, da USP, acrescentam outra camada de preocupação: “A fadiga mental do atleta que não desliga é tão prejudicial quanto a física. Estamos criando condições para burnout em escala industrial”.

A economia do espetáculo ininterrupto

Do ponto de vista financeiro, a lógica parece irrefutável à primeira vista. Mais jogos significam mais transmissões, mais bilheteria, mais exposição para patrocinadores. O surgimento das casas de apostas esportivas como categoria dominante de patrocínio adicionou uma camada financeira robusta ao ecossistema. Segundo relatório da consultoria Sports Value, o investimento de empresas de betting no futebol brasileiro saltou de R$ 180 milhões, em 2020, para estimados R$ 2,1 bilhões, em 2025.

Executivos de marketing esportivo defendem que o modelo atende às demandas de uma audiência fragmentada e sempre conectada. “O torcedor contemporâneo consome futebol como série de streaming: quer disponibilidade constante”, argumenta Carlos Mendes, diretor de uma das principais agências de marketing esportivo do país.

Porém, investidores com visão de longo prazo começam a questionar a sustentabilidade. A desvalorização do ativo principal — o atleta lesionado ou em declínio precoce — pode representar prejuízos que superam ganhos imediatos de transmissão. Um levantamento do site Transfermarkt mostra que jogadores brasileiros têm perdido valor de mercado mais rapidamente após os 27 anos, quando comparados a pares europeus, possivelmente pelo desgaste acumulado.

A migração digital e a segmentação tribal

A transformação do ecossistema midiático amplia as dimensões econômicas do fenômeno. Comentaristas e apresentadores abandonaram veículos tradicionais para criar canais no YouTube voltados exclusivamente para torcidas específicas. Essa segmentação tribal gera engajamento intenso, mas também alimenta polarizações e demandas por conteúdo diário.

Pesquisadores em comunicação, como o professor André Azevedo, da UFF, observam que essa fragmentação cria uma “economia da ansiedade permanente”. Canais precisam de novidades constantes para manter audiência, pressionando clubes e federações a produzirem eventos. O calendário expandido atende perfeitamente a essa necessidade de combustível para a máquina de conteúdo.

Vozes do campo

Jogadores começam a expressar preocupações publicamente, ainda que com cautela, devido a pressões contratuais. Em entrevistas recentes, atletas como Raphael Veiga (Palmeiras) e Éverton Ribeiro (Bahia) manifestaram que “o corpo pede socorro” diante da sequência ininterrupta. Sindicatos de atletas profissionais reivindicam limites máximos de partidas anuais, encontrando resistência em dirigentes que temem perder receitas.

Dirigentes de clubes médios apresentam um dilema particular. Precisam competir em múltiplas frentes para manter relevância e receitas, mas raramente possuem elencos profundos o suficiente. O resultado são equipes que entram em colapso físico no segundo semestre, perpetuando desigualdades competitivas.

O torcedor: pagador ou produto?

A experiência do consumidor final também se transforma. Pesquisas de comportamento indicam que a abundância extrema pode gerar fadiga até no apaixonado. Um estudo da FGV sobre hábitos de consumo de entretenimento mostrou que 41% dos torcedores entrevistados sentem que “há jogos demais para acompanhar”, criando ansiedade em vez de prazer.

Simultaneamente, o modelo de assinaturas múltiplas para acessar diferentes competições (estadual em uma plataforma, Brasileirão em outra, Libertadores em uma terceira) fragmenta e encarece o acesso. O torcedor médio brasileiro precisa desembolsar valores equivalentes a 15% a 20% do salário mínimo mensal para ter acesso completo ao seu clube, segundo levantamento do portal Trivela.

Comparações internacionais

Ligas europeias enfrentam debates similares, mas com diferenças importantes. A Bundesliga alemã mantém pausa obrigatória de inverno. A Premier League debate constantemente limites de jogos, com clubes enfrentando penalidades por sobrecarga de atletas jovens. A FIFA propõe regulamentação global de calendários, enfrentando resistência de confederações locais.

O modelo brasileiro parece caminhar na contramão dessas tendências regulatórias, apostando na maximização de curto prazo, enquanto mercados mais maduros buscam sustentabilidade.

Reflexões necessárias

O futebol brasileiro encontra-se em uma encruzilhada entre tradição e transformação, entre paixão genuína e produto industrializado. As perguntas que emergem não possuem respostas simples:

Estamos construindo um modelo que valoriza genuinamente o esporte ou apenas explorando a paixão como recurso renovável infinito? O investimento crescente retorna em qualidade do espetáculo ou apenas em quantidade? Qual é o ponto de ruptura entre maximização de receitas e degradação do produto central?

A realidade é que o futebol brasileiro sempre foi excessivo, emocional, caótico. Essas características fazem parte de sua identidade. Mas há diferença entre o caos criativo e a insustentabilidade sistêmica. O calendário de doze meses pode ser o ponto em que cruzamos essa linha.

Para o torcedor, o investidor, o jogador e todos os envolvidos nesse ecossistema multibilionário, o momento exige reflexão honesta: queremos um futebol que dure para sempre ou estamos dispostos a consumi-lo até sua exaustão, apostando que sempre haverá novos talentos para reposição?

A resposta que construirmos coletivamente nos próximos anos definirá não apenas o calendário, mas a própria alma do futebol brasileiro.

As cifras movimentadas são imensuráveis não apenas em reais, mas em sonhos, identificações e vidas dedicadas. Resta saber se estamos investindo nesse patrimônio imaterial ou apenas sacando dele até o limite do cheque especial.

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