No início de janeiro de 2026, uma história dolorosa começou a ganhar força em Florianópolis (SC) e, em poucos dias, atravessou fronteiras regionais, chamando atenção de pessoas de todo o Brasil. O protagonista dessa narrativa não era um político nem uma celebridade. Era um cachorro carismático, conhecido por todos como Orelha, que vivia há mais de dez anos na Praia Brava, no norte da Ilha de Santa Catarina, e conquistou o carinho e o afeto de moradores, comerciantes e visitantes.
Ao longo de sua vida, Orelha se tornou, na prática, um mascote comunitário. Alimentado, acariciado e respeitado por quem frequentava a região, ele não era propriedade de uma única pessoa, mas sim parte do cotidiano coletivo , um símbolo de convivência, ternura e conexão entre humanos e animais.
No entanto, em um episódio marcado por extrema violência e incompreensível crueldade, esse animal tão querido foi vítima de maus-tratos que chamaram atenção e indignaram não apenas a comunidade local, mas também protetores de animais e cidadãos por todo o país.
O que aconteceu com Orelha
Segundo as investigações conduzidas pela Polícia Civil de Santa Catarina, Orelha foi alvo de agressões físicas intensas cometidas por um grupo de quatro adolescentes. O cão foi encontrado com ferimentos graves, resultantes de pauladas, pelo menos de acordo com a investigação preliminar, em diferentes partes do corpo, incluindo a cabeça.
O laudo médico realizado após o resgate revelou que Orelha sofreu lesão contundente na cabeça, compatível com pancadas repetidas. As autoridades policiais informaram que o animal foi socorrido por moradores e levado a uma clínica veterinária, mas morreu durante as tentativas de salvamento, tendo sido submetido à eutanásia para evitar sofrimento adicional.
Esse desfecho marcou não apenas o fim da vida de um cão que havia feito parte da história de muitos, mas também o início de uma investigação criminal que colocaria em evidência questões delicadas sobre violência, responsabilidade legal e consequências das ações humanas.
Quem eram os suspeitos e como a polícia agiu
Com base em pistas coletadas por meio de imagens de câmeras de segurança, depoimentos e relatos de moradores, a Polícia Civil identificou quatro adolescentes suspeitos de envolvimento nas agressões.
Em 26 de janeiro, a corporação cumpriu três mandados de busca e apreensão nas residências de dois dos jovens, com o objetivo de recolher equipamentos de tecnologia, como celulares e computadores, que podem conter evidências relevantes para a investigação. A ação também buscou localizar uma arma de fogo que, segundo relatos, teria sido usada para coagir uma testemunha, um vigilante que teria comentado sobre possíveis informações relacionadas ao caso. O armamento, contudo, não foi encontrado.
Dois dos quatro adolescentes desapareceram temporariamente da cidade logo após o episódio, eles teriam embarcado para os Estados Unidos em uma viagem previamente programada, e devem retornar ao Brasil nos próximos dias para prestar depoimento.
Por sua vez, as famílias dos suspeitos negaram envolvimento direto dos filhos nas agressões, afirmando que os jovens estariam sendo injustamente acusados e expostos nas redes sociais sem provas conclusivas.
Além dos adolescentes, três adultos — familiares dos jovens — foram indiciados por coagir testemunhas, em um episódio que acrescentou ainda mais complexidade à investigação e gerou críticas por tentativas de interferir no processo.
Quem era Orelha: mais do que um cão, um símbolo comunitário
Orelha não era apenas mais um cachorro nas ruas de Florianópolis. Ele era parte do imaginário afetivo de quem vivia ou passava pela Praia Brava. Os cães comunitários — como Orelha — ocupam um lugar particular em muitas comunidades: vivem na rua, mas recebem alimento, cuidados, carinho e proteção de grupos de moradores, comerciantes e voluntários que se organizam para garantir bem-estar aos animais sem tutor fixo.
Ao longo de mais de uma década, Orelha caminhou por calçadas, acompanhou passeios na praia, ganhou nomes carinhosos e retribuiu com confiança e ternura. Muitos na comunidade descrevem a dor por sua perda como profunda, porque o cão representava não apenas amizade, mas também um vínculo coletivo de cuidado e respeito pela vida.
A morte do animal acabou se tornando um símbolo doloroso da fragilidade desses vínculos quando confrontados com a violência gratuita, e serviu como um ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre a proteção dos animais na sociedade.
Outros episódios envolvendo animais no mesmo local
O caso de Orelha não foi a única ocorrência de maus-tratos a animais na região naquele período. A investigação apontou que o mesmo grupo de adolescentes também teria agredido outro cão comunitário, conhecido como Caramelo, tentando até mesmo levá-lo ao mar em uma tentativa de afogamento.
Esse animal, no entanto, conseguiu escapar e foi posteriormente adotado pelo delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, que assumiu o cuidado do cão após o episódio, em um gesto que ganhou repercussão nas redes sociais.
Como a comunidade reagiu: protestos e solidariedade
A notícia da morte de Orelha provocou uma onda de comoção imediata na Praia Brava e em outras partes de Florianópolis. Moradores organizados, protetores independentes e ativistas da causa animal se reuniram em protestos pacíficos, portando cartazes, caminhando pelas ruas e exigindo “justiça por Orelha” — uma expressão que se espalhou nas redes sociais e ganhou apoio de pessoas de todo o país.
As manifestações convidavam à reflexão, não apenas sobre o caso específico, mas sobre a importância de acolher, proteger e respeitar os animais que convivem em espaços públicos, especialmente aqueles que, como Orelha, se tornaram parte da vida comunitária.
Um alerta para a sociedade: o crescimento dos maus-tratos
Especialistas e protecionistas apontaram que o caso de Orelha não pode ser visto isoladamente. Dados coletados em Santa Catarina mostram que os registros de maus-tratos a animais cresceram de forma significativa nos últimos anos, com milhares de ocorrências registradas apenas em 2025, até o início de dezembro, em um aumento de mais de 200% em relação à década anterior.
Esse cenário preocupante indica que episódios de violência contra animais, especialmente cães comunitários e de rua, têm se tornado mais frequentes, exigindo respostas mais efetivas por parte das autoridades, políticas públicas mais robustas e uma sociedade mais engajada na proteção dos direitos dos animais.
O debate judicial e as possíveis consequências legais
Como os principais suspeitos são adolescentes, a investigação e o processo seguem pelas regras específicas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Isso significa que os jovens não são julgados como adultos, mas sim de acordo com as normas que tratam de atos infracionais cometidos por menores de idade.
Segundo especialistas consultados pela imprensa, caso sejam responsabilizados pelas agressões, os adolescentes podem ser submetidos a medidas socioeducativas previstas no ECA, que incluem desde advertências até internação em centro especializado por períodos que variam conforme a gravidade do ato e as circunstâncias pessoais de cada um.
Esse aspecto jurídico tem provocado debate entre membros da comunidade, que questionam se esse tipo de punição é suficiente para um caso de tamanha brutalidade, e pedem reflexões mais profundas sobre educação, convivência civil e respeito à vida.
Repercussão nacional e o sentimento coletivo
O caso Orelha rapidamente ultrapassou os limites de Florianópolis e ganhou repercussão nacional. Organizações de defesa dos animais, celebridades engajadas em causas sociais e milhares de internautas compartilharam mensagens de solidariedade, exigindo respostas concretas das autoridades e políticas públicas que previnam episódios semelhantes no futuro.
O episódio também reacendeu debates sobre empatia, responsabilidade coletiva e o papel das comunidades na proteção de seres que, embora não falem nossa língua, participam profundamente de nossa vida afetiva.
Conclusão: além de um cão, um chamado à consciência
A morte do cão Orelha não foi apenas um ato cruel contra um animal venerado por sua comunidade. Foi um chamado coletivo para refletir sobre como tratamos os seres que dividem nosso espaço, nosso tempo e, muitas vezes, nosso afeto.
A investigação em andamento traz à tona questões de justiça, legislação, efeitos da violência e limites do sistema socioeducativo. Mas, acima de tudo, o caso convida cada um de nós a olhar para a convivência com mais humanidade.
Orelha deixou de ser apenas um cachorro na Praia Brava. Ele se tornou um símbolo involuntário de carinho, solidariedade e da luta por um mundo onde a vida, em todas as suas formas, seja respeitada e protegida.