Era só o calendário marcar dezembro, o sol ficar mais insistente e o cheiro de protetor solar se misturar ao ar, que um fenômeno sincronizado tomava conta do país: de norte a sul, do Oiapoque ao Chuí, as rádios brasileiras entravam em uníssono. Nos anos 90, bastava o primeiro acorde de “Flores” (É o Tchan com Daniela Mercury), “Segura o Tchan” ou “A Galera” (Falamansa) para que milhões de pés começassem a se mover, automaticamente, em direção à pista ou à areia da praia. O verão, no Brasil, sempre teve trilha sonora própria e soberana.
Esse fenômeno, porém, é mais do que apenas uma playlist sazonal. É um estudo de comportamento, marketing e afeto. As “músicas de verão” obedecem a uma fórmula quase química: ritmo contagiante, letras simples e repetitivas (perfeitas para quem está de copo na mão) e uma temática que remete à praia, ao romance, à festa e, claro, às “garotas” e aos “amores” de temporada. Se, na era do axé, o mote era a dança e a dupla-casal (como Carla Perez e Compadre Washington, no É o Tchan), a virada do milênio trouxe um romantismo mais explícito, com cara de Havaí.
Artistas como Eguinha Pocotó, com o inesquecível “Tchau pra Você”, e os fenômenos do pagode e do sertanejo começaram a mesclar a batida dançante com letras que falavam de paquera à beira da piscina, saudade do amor de verão e promessas feitas sob o sol. Era um romance descontraído, de shorts e regata, mas que arrancava suspiros. Essa herança romântica se fundiu com a levada dançante e gerou um filão inesgotável.
Hoje, o cenário se pluralizou, mas a essência permanece. Anitta, que desde “Show das Poderosas” entendeu o poder de um hit de temporada, Ferrugem, com seu pagode romântico perfeito para o pôr do sol, e até nomes como Gusttavo Lima e Péricles, com seus sertanejos e pagodes pop, são presenças garantidas nos tops. O que mudou, radicalmente, foi o ciclo de consumo e divulgação.
“Antes, o rádio era o grande lançador. Hoje, ele é um consolidador”, analisa um relatório recente da Billboard Brasil. A música nasce, muitas vezes, no TikTok e nos Reels do Instagram. Um trecho de 15 a 30 segundos, geralmente o refrão mais “grudento”, vira um desafio de dança ou a trilha para vídeos de praia, festas e viagens. Essa viralização dita o sucesso e força sua entrada nas playlists das rádios, que ainda são um termômetro fundamental para atingir o público que está no carro a caminho do litoral ou no trabalho, com um fone de ouvido, sonhando com as férias.
“O clipe deixou de ser um produto caro para a TV e se tornou um conteúdo em série para as redes sociais. Artistas lançam making of, bastidores e várias versões de uma mesma música, mantendo-a viva e no algoritmo”, explica Marina Oliveira, especialista em cultura digital e colunista do portal Comunique-se.
E o futuro? O que o verão 2025/2026 reserva?
A tendência é de uma mistura ainda maior. O funk continua seu domínio absoluto e se funde com o pagode (o famoso “pagodão”), gerando hits de letras ousadas e batida irresistível. O sertanejo universitário mantém seu espaço nas baladas noturnas, enquanto uma nova leva de artistas do piseiro e do brega-funk ganha força, falando de amor e festa com uma linguagem ainda mais direta e coloquial. A nostalgia também é uma aposta certa: samplear ou refazer sucessos do axé dos anos 90 é uma estratégia frequente e bem-sucedida, atraindo o público entre 30 e 45 anos ou mais, que quer reviver a vibe dos trios elétricos.
O desafio para os artistas é criar uma música que tenha o “momento TikTok” — a parte viciante —, mas que também sustente uma escuta completa no rádio ou no streaming. E, claro, que capture o sentimento efêmero e dourado do verão: a liberdade, o romance passageiro, a amizade e a sensação de que, naqueles três meses, tudo é possível.
E aí, o que será que vem por aí? Os produtores musicais já estão em estúdio, testando batidas e refrões, na tentativa de cravar a fórmula mágica dos próximos meses de calor. A disputa pelas paradas do verão 2025/2026 já começou nas redes sociais, longe do mar, mas com o olho no termômetro e no coração do público.
E você, já tem a sua aposta? Me conta aí nos comentários: qual é a música que não pode faltar na sua playlist de verão? Qual artista você acha que vai dominar as rádios no próximo verão? Compartilhe suas previsões e suas dicas! Sua opinião é a melhor pesquisa para entendermos esse fenômeno que, ano após ano, aquece nosso país com muito ritmo e emoção.
Fontes de pesquisa e leitura indicada:
• Billboard Brasil — “O impacto das redes sociais no lançamento de hits”.
• Portal PropMark — “Marketing musical: como as marcas se aproveitam dos hits de verão”.
• Tese acadêmica (USP) — “Do Axé ao TikTok: a trajetória da música de verão no Brasil”, Prof. Dr. Carlos Fernando Mendes.
• Dados de streaming — Spotify Brasil, Relatórios Culturais Sazonais.